Quem Fez Minhas Roupas: Maria Do Carmo

Por Bruna Miranda

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Depois de começar o Review produzindo roupas com a Neli, achei que seria muito legal conhecer a história de novas costureiras. Cada uma delas tem a sua história pra contar e sua visão particular sobre essa profissão tão valiosa. Continuei no bairro Floresta, onde morei por doze anos (acabei de me mudar para o bairro vizinho, Santa Tereza, que, ainda bem, tem um clima de interior tão agradável quanto!), e, em uma loja de tecidos, perguntei por costureiras que eles conheciam. Das recomendações, a primeira que liguei foi para a Maria do Carmo Saraiva, que é também estilista. Tive uma enorme afeição por ela logo que a conheci em seu ateliê, por sua personalidade amorosa e cuidadosa, sua coleção de revistas de moda, seu gosto por pesquisas de novos modelos e, resumindo, pelo seu amor pelo que faz.

O espaço de costura da Maria do Carmo, em seu ateliê, com suas amadas plantas

O espaço de costura da Maria do Carmo, em seu ateliê, com as plantas, outro xodó

Ainda dos tecidos excedentes comprados e doados pela Graça Ottoni, ela finalizou dois deles, sempre com seus toques pessoais para que o caimento e acabamento ficassem perfeitos. Um outro ela transformou em uma blusa, com um decote incrível nas costas. Essas peças serão as próximas das fotos do Review.

A Maria do Carmo nasceu e cresceu em um sítio em Teixeiras, um distrito do município de Viçosa, Minas Gerais. Sua mãe, Carolina, sempre foi costureira e dona de casa, além de dar aulas de corte e costura. Começou a profissão com uma máquina de pedal, e só mais pra frente é que teve a máquina que faz acabamentos. Dos casos mais maravilhosos que já ouvi, quando a Maria do Carmo tinha 17 anos, ainda não tinha luz elétrica na região, só de querosene. Quando chegou, sua família não tinha condições de colocar, então ela, que aprendeu a costurar bem mais nova só de ver a mãe trabalhando, resolveu trabalhar para colocar luz em casa. “Como todos nos conhecíamos, consegui um financiamento”, lembra.

Festival de cores das linhas e um espaço especial para o diploma de costura da sua mãe, Carolina, com quem ela aprendeu a costurar

Festival de cores com as linhas e um espaço especial para o diploma de costura da sua mãe, Carolina, com quem ela aprendeu a costurar

Quando se casou, aos 35 anos, veio pra Belo Horizonte e trabalhou em uma boutique, também no Floresta. Quando engravidou, resolveu trabalhar em casa – com a máquina que foi da mãe. Fez alguns cursos na área mas considera que sua prática vem mesmo do que aprendeu com ela.

Sua paixão por revistas vem desde quando começou a trabalhar. “Surgiu a revista Manequim, tenho todas até hoje! Minha coleção foi só aumentando, hoje não posso ver uma revista que já quero”, diverte-se.

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Uma parte da sua coleção de revistas de moda

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Na parede, todas as inspirações de looks de revistas que ela já criou para suas clientes. São camadas de fotos, já nem cabe mais!

A Dona Carolina faleceu com 93 anos, costurando até quando pode, sempre disposta a ajudar a filha e a continuar fazendo o que sempre gostou. As irmãs da Do Carmo, que também aprenderam a costurar só de ver a mãe em ação,  já trabalharam com consertos de roupas e em uma confecção de lingeries e moda praia, mas quem gosta mesmo do ofício é ela. “Faço roupas para todas elas, principalmente de festas”, conta. Já as filhas da Do Carmo têm vontade de fazer para elas mesmas, mas acabaram indo fazer outras coisas. Uma delas, amante dos animais, se tornou bióloga. “O trabalho manual atualmente não é muito comum. Acho que a costureira já está em extinção, hoje vejo pessoas que reformam roupas, mas, pegar para fazer, mesmo, é muito raro. As lojas de roupas já têm muitas opções, e acho também que as lojas de tecidos vão acabar, uma pena, mas é a realidade”, analisa.

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Outra coisa que ela adora fazer é desenhar croquis dos seus vestidos favoritos

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Mais detalhes do seu ateliê, um espaço tão caprichoso que dá gosto

Até para manter viva a profissão, ela conta que tem vontade de dar aulas de corte e costura. “Existem pessoas interessadas, o problema é achar tempo. Acredito que para aprender é simplesmente na prática, não adianta. Tem que pegar um tecido e cortar, ser aventureira, foi assim que aprendi com minha mãe, tirando medidas, riscando, depois passando para a máquina”, explica. Ela conta que acha muito prazeroso olhar para a pessoa, pensar em algo que ficaria bom para ela, montar a peça no corpo. Das roupas que mais gosta de fazer, sem dúvidas os vestidos, de todos os tipos, principalmente de festas. Ela também já fez roupas masculinas, mas, hoje em dia, a procura de clientes é tão grande, que ela não dá conta de pegar tudo. E acrescenta, sorrindo: “Com a costura não vou ficar rica, porque não dá, mas, pelo menos, faço o que gosto”.

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Maria Do Carmo buscando inspirações em seu ateliê

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O caderno feito por ela com retalhos de cada tecido que trabalha, para ajudar as clientes nas escolhas

Já há uns dois anos, a Do Carmo tem gostado muito de trabalhar com customização. “É muito bacana ver uma roupa que você não vai mais usar e aproveitar aquilo. Por exemplo, uma cliente queria ir em um casamento, mas, como pelo facebook todo mundo já tinha visto seu vestido, que era lilás, ela queria outro. Fiz uma montagem em renda preta, ninguém poderia dizer que era o mesmo. Customizei até o vestido de casamento da minha filha, também com rendas”, conta. Outra coisa que reaproveita são materiais como zíperes, botões e retalhos. “Pergunto se a pessoa quer o que sobrou, mas como quase ninguém quer, eu guardo. Ainda quero fazer coisas lindas com eles, além dos tecidos descartados e retalhos que ganho de lojas de tecidos e também uso para produzir. Os que não vou reaproveitar dôo para quem sei que trabalha fazendo fuxicos e tapetes”.

Eu mesma ganhei dela vários retalhos incríveis. Obrigada por tudo, Do Carmo! Com certeza ainda temos muita Moda Com História para compartilhar!

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Sobre Bruna Miranda

Desde que meu armário coube na mala busco a leveza abundante dos essenciais, dos atemporais, da soma de resgates e inovações.

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4 Thoughts to Quem Fez Minhas Roupas: Maria Do Carmo

  1. Seleste Responder 11 de novembro de 2014 at 21:45

    Parabéns Carminha.Seu trabalho é maravilhoso .Que Deus continue te abençoando .Um forte abraço .qualquer dia vou ai conhecer seu ateliê .

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  2. Verônica Responder 11 de novembro de 2014 at 21:45

    Parabéns, Bruna, pela reportagem e iniciativa! Fiquei muito emocionada com a matéria e em ver o seu carinho e valorização do trabalho da minha mãezinha, Maria do Carmo. Sempre desejei que seu talento fosse destacado, pois só nós que convivemos sabemos como ela se dedica e ama a profissão. Tímida demais, se depender dela, só fica no anonimato. Mas o potencial e criatividade são ilimitados! É surpreendente como ela consegue transformar qualquer roupa ou tecido em obra de arte! Por isso digo que ela transforma panos em sorrisos! Convido todos à experimentar e/ou desafiar essa baixinha; vocês irão se surpreender! – e tudo isso num ateliê que mais parece um SPA de tão aconchegante!

    Mãezinha, só mesmo você para dar conta de todos meus anseios de ter um look único, autêntico, exótico e cheio de estilo!! Obrigada!!

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    • Bruna Miranda Responder 11 de novembro de 2014 at 23:03

      Verônica, que lindíssima sua mensagem, muito obrigada! É de família mesmo! Fico imensamente feliz por vocês terem gostado, feliz e emocionada também por ter a oportunidade contar um pouquinho da história da sua mãe, pessoa tão linda e tão rara. Com pouco tempo de convivência já dá pra perceber como ela é especial. E sim, talento e paixão ela tem de sobra, vai continuar brilhando! Panos em sorrisos é uma definição perfeita para o que ela faz. Um dia desses tava lá com ela e começou a chover, ficamos conversando enquanto a chuva passava e o tempo voou, de tão calorosa ela e seu espaço são. Quem a conhecer vai se encantar também, como todos, com certeza. Super beijo, espero te conhecer também!

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  1. Review Upcycling Por Mariane Oliveira | Review | Slow Lifestyle - 5 de agosto de 2015

    […] descartados por confecções e roupas sem uso, e conhecer as histórias das costureiras Neli e Maria do Carmo, do Bairro Floresta, em BH, acabamos intensificando por um tempo nosso trabalho com conteúdo, […]

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