Review entrevista: Moda social por Rogério Lima

Por Bruna Miranda

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No último Minas Trend, fizemos uma seleção dos trabalhos e projetos que mais nos chamaram a atenção. Um dos destaques de todo o evento, sem dúvida, foi para a moda social do designer Rogério Lima com a exposição “Habitantes Invisíveis” e suas bolsas produzidas com material reaproveitado. Com a Mariane, do Eco Closet, tivemos uma produtiva entrevista/bate papo com ele sobre como começou a inserir os aspectos sustentáveis em seu trabalho e vários outros tópicos dentro desse tema. Confira.

O início, com as bolsas de sacos de cimento

Rogério Lima, que já criou acessórios para marcas como Cavalera, Ellus e Ronaldo Fraga (essa última a mais prazerosa, em sua opinião), conta que sempre brincou com essa história do lixo, com o foco de mostrar que precisamos olhar para o lado sustentável. “É possível, com criatividade e tecnologia, transformar um produto do lixo em luxo. Ainda existe muito preconceito com os produtos reciclados, que remetem a uma estética artesanal sem acabamento e sem valor agregado”, explica. Quando teria início o Minas Trend Preview em Belo Horizonte, o convidaram para participar da feira, já que seria o próximo presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Bolsas e Cintos do Estado de Minas Gerais (Sindibolsas-MG) – cargo que ocupa até hoje – e eles precisavam de apoio das indústrias do estado. “Eu topei, mas, como não poderia vender, quis participar com algo que remetesse a pensar, de alguma forma, no lado sustentável”, conta. Foi daí que começou a história das bolsas feitas com sacos de cimento:

“As coisas, quando têm que acontecer, vêm tudo de uma só vez e na hora certa. Estava fazendo uma reforma pesada em meu showroom, gastando muitos sacos de cimento. Guardei todos na minha garagem para um catador de papel, que acabou nunca indo buscar. Paralelo a isso, tive o prazer de estar no famoso desfile do Jum Nakao onde ele rasgou as roupas de papel, e aquilo foi muito forte pra mim. Daí eu pensei que poderia fazer uma história com as bolsas como o Jum fez, só que sem rasgar (risos). Comecei a fazer uma série de testes, já que costurar papel é difícil, e consegui chegar em uma dublagem que me permitiu tanto costurar quanto impermeabilizar o material. Daí foi fácil fazer a coleção, porque eu já tinha a história para mostrar o conceito de sustentabilidade e peguei algumas bolsas que eu já tinha feito em couro e fiz a releitura com o papel. Trouxe esse projeto inicial para a estreia do Minas Trend Preview sem poder vender, sem cartela de cores, nem nada. Chegando lá deu uma repercussão incrível, com vários lojistas querendo comprar. Eu respondia que não podia vender, que eram feitas com papel e ainda não sabia tudo sobre a durabilidade delas, apesar de já ter testado a resistência e perceber que não se rasgavam, mesmo jogando de um lado pro outro. Podia também jogar água que não infiltrava. Um problema era a exposição das marcas dos cimentos nas bolsas, mas fiquei conhecendo um dos donos do cimento Cauê e ele me cedeu o direito de uso de imagem. Daí então entreguei os pedidos das primeiras bolsas. A partir disso foi crescendo minha visão em transformar o lixo em bolsas de luxo.

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Exposição Habitantes Invisíveis

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A moda como fator social: com curadoria de Pedro Lázaro, a exposição reuniu 60 fotos e dois vídeos que mostraram ao público o tema da nova coleção do estilista, que leva mesmo nome

O designer, que afirma nunca ter saído para fazer pesquisas de moda e ter como direcionamento sua própria intuição e o olhar da rua, contou para a gente como se inspirou e desenvolveu a exposição mais comentada dessa edição do Minas Trend.

“Sempre saio para andar de bicicleta com meu neto, Fernando, de três anos. Numa de nossas andanças, paramos na Praça Raul Soares, que têm muitos moradores de rua. Ele, que está na fase das perguntas, quis saber porque uma mulher estava lavando roupa ali, e eu o encorajei a perguntar ele mesmo para ela. Ele foi e começou um papo, tanto com ela, quanto com os outros moradores. Fui entrando nesse universo e percebi que tinha muita história para contar, de todo tipo. Tem até gente de família rica que não quer sair das ruas. Infelizmente todas acabam de maneira triste, sempre relacionadas a drogas ou a relacionamentos infelizes. Eu falo muito do lixo, mas, do elemento principal, eu nunca tinha falado, que é o ser humano. E veio a fonte para a essa coleção.

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A rotina de homens e mulheres que moram nas ruas das grandes cidades e sobrevivem à indiferença de todos que cruzam seus caminhos. Rogério percebeu o quanto o preconceito enraizado faz com que essas pessoas se tornem invisíveis diante da sociedade, então quis trazer o assunto à tona e convidar outras pessoas para a mesma reflexão

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As fotos da mostra foram feitas pelo fotógrafo Sergio de Rezende. Um dos vídeos registra o processo de pesquisa e as conversas de Rogério com os moradores de rua. Já o outro tem como objetivo alertar a sociedade para a existência dos chamados habitantes invisíveis. “Convidamos os moradores e catadores a usarem uma bolsa Rogério Lima e observamos a reação de quem passava pelo local. É um absurdo a gente pensar que, para serem notadas, essas pessoas precisam passar por uma situação dessas. Algumas achavam até que eles as tinham roubado. Eles têm que ser visíveis de alguma outra forma”

Sobre a Sustentabilidade

Rogério acredita que a sustentabilidade na moda é algo ainda fictício. “Para fazer qualquer coisa sustentável, seja na moda ou em qualquer outra área, temos que mexer na base, que é o ser humano. Na minha opinião, se não envolver o ser humano não adianta falar em sustentabilidade”, analisa. Esse ponto de vista veio de seu envolvimento com o universo dos catadores de papel e latinhas na região central de Belo Horizonte. Ele explica: “A indústria tem um enorme orgulho em dizer que 90% do alumínio é reciclado. Você tomou a sua cerveja, em 15 dias ela está de volta às suas mãos. O processo todo é muito rápido, foi recolhido, é derretido e logo envasado de novo. Mas é tudo feito com mão de obra escrava e movida a drogas, e ninguém fala disso. Tive a oportunidade e infelicidade de presenciar esse fato, um cara vendendo vinte e cinco quilos de latinhas, e, na hora de receber, foi perguntado se queria ‘pedra’ ou dinheiro, e ele escolheu a droga. Eu ainda argumentei a razão dessa escolha, depois de trabalhar tanto ainda vai trocar tudo por crack? Ele respondeu que já tinha comida, já tinha onde tomar banho, onde cortar o cabelo e até onde dormir, se quisesse, só não tinha a droga, e que ele vivia dela. E ainda disse que, se fosse trocar por dinheiro, teria o trabalho de ter que ir na ‘boca’ buscar. Então é isso o que acontece, virou um comércio”.

Como solução, ele argumenta que a responsabilidade é da indústria, de toda a cadeia. “Quem usa o lixo para qualquer fim mas não o recolhe, claro que tem alguém recolhendo para ele. E é ele quem deveria pagar por esse lixo, não um atravessador”. Ele afirma ainda que não quer penalizar a indústria e que entende como é muito difícil esse tipo de recolhimento. “Mas temos que fazer alguma coisa nesse sentido, porque a moeda de troca não pode ser a droga. Então precisamos conseguir trabalhar primeiro essa base, que são esses habitantes”. Além disso, ele conta que também teve contato com muitas pessoas que sobrevivem desse universo do pet, das latinhas ou do papelão que recolhem, mas que não moram na rua e recebem em dinheiro para as contas de casa. “Mas a mão de obra continua sendo escrava, eles trabalham mais de doze horas e não tem benefício algum. Essa base pode ser o pilar de uma sustentabilidade verdadeira, no sentido da palavra”.

Sobre a Moda Sustentável

Rogério explica que o intuito da exposição é desmistificar que tenha alguém fazendo moda sustentável nesse país. “Tem gente levantando a bandeira da sustentabilidade, isso é um caminho. Mas fazendo moda com sustentabilidade eu ainda não vi. E, mesmo com relação aos tecidos ecológicos, é bacana a ideia, tem toda uma campanha, mas quando você olha para a base, de onde o tecido vem, como ele é reciclado, como é coletado, como é pago, será que em algum momento foi pensado nessa base, existe essa preocupação? O recolhimento do material está certo? A pet que ele está reciclando está virando droga? Está tirando alguém da rua? Porque, se está reciclando a garrafa pet, essa pet está vindo da rua. E, se ela está vindo da rua, como é a remuneração? Porque a marca que utiliza esses tecidos reciclados tem feito a sua parte, mas também tem que olhar para trás. Acredito então que esse é o foco, tem que começar a ter esse olhar. Se a empresa fala que está fazendo sustentabilidade, ela tem essa consciência, mas não a outra que, de repente, ainda não teve a oportunidade de ver, que é essa base, o ser humano. E sim, precisamos apoiar as pessoas que pensam na sustentabilidade, de verdade”.

Sobre a coleção apresentada no Minas Trend – Inverno 2015 

Nas bolsas apresentadas na exposição, Rogério Lima trabalhou com materiais diversos. “Cada hora busco um material diferente”, conta. A ráfia preta é reciclada, o que confere uma tonalidade mais fosca, e a branca, de material virgem, tem mais brilho. Ele explica que é um material resistente e “muito mais durável que as bolsas da China”, perdendo apenas para o couro. A mochila com capuz foi feita com garrafas pet. As bolsas de sacos de cimento e cobertor marcaram presença na exposição. “Só não fiz para venda as bolsas de cobertor porque os clientes acharam muito quente”, brinca. O carpete que sai do Minas Trend é a sua embalagem para as bolsas. “Fiz também uma coleção inteira com esse carpete que sai daqui”.

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As bolsas feitas com cobertor e com carpete

Outro conceito que desenvolveu é o da bolsa feita com alumínio, exatamente com o propósito de ser amassada. O designer explica: “O intuito é que, quem vir aquela bolsa amassada, sabe que ela tem um cunho social, que ela realmente ajudou alguém. Um produto com valor agregado para pessoas que se preocupam e querem apoiar e participar de uma causa, expandindo essa ideia. Não falo só de mim, a ideia é disseminar para que existam outros produtos que tenham essa característica do amassado de alguma forma, assim como temos as camisetas de campanhas, como a do câncer de mama, por exemplo”.

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A mochila com capuz feita com garrafas pet, suas bolsas tradicionais, feitas em couro, e a bolsa com o conceito do amassado

Futuros Projetos sociais

De acordo com o designer, a moda é um veículo muito bacana de se falar de temas polêmicos, sem a necessidade de criticar. “Quero fazer a Instituição Rogério Lima para fiscalizar as empresas que estão colocando o lixo no lixo. Quero fiscalizar no sentido de reverter, financeiramente, essa história do recolhimento, vinculado ao nosso processo criativo e produtivo, para podermos formatar a cadeia por inteiro. Vou recolher a pet de forma decente e entregar pro cara que faz o tecido. Recolher a latinha decentemente e sempre fiscalizando, eliminando a droga. A moeda de troca não pode ser o dinheiro, mas, sim, materiais de construção para reurbanizar as comunidades. Criar uma campanha de reurbanização das favelas através do lixo, entregando o lixo certo para a empresa certa, fortalecendo a cadeia, um projeto que pode ser feito simultaneamente pelo país para ganhar força mais rápido e, aí sim, desenvolvermos uma moda sustentável. Já começamos a formatar”.

Sobre o Fast Fashion

“Hoje em dia temos muita informação e muita coisa acontecendo, muitos seguidores, de muitas coisas. Temos fenômenos que vem e vão, como a blogueira Thássia, por exemplo. Mas também tem muita gente que não quer o que todo mundo quer. Acho também que hoje podemos comprar produtos super bacanas e bem acabados, de uma maneira muito fácil, de qualquer lugar do mundo, e eles chegam na sua casa lindos e maravilhosos. Se você for sair para comprar, vai sair por algo a mais, não só pelo produto e sua qualidade, você quer atendimento, cumplicidade, um relacionamento de amizade e confiança com a marca, um propósito. Daí que volta a personalização e saímos da esfera do fast fashion, uma coisa natural que vai acontecer, a meu ver. Tenho certeza e confio que esse é um ciclo que vai voltar, e, dando outro exemplo, os ateliers especializados em alfaiataria”.

Fechando a nossa conversa, Rogério nos contou que sua fábrica, onde são produzidas todas as suas bolsas, é aberta a todos os que a quiserem visitar, e que a sustentabilidade em seu trabalho é algo que vai continuar a ser desenvolvida. “Como conversamos, ela só precisa se tornar mais verdadeira no sentido de trabalhar a base, um olhar para o humano”, finaliza.

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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