Costureiras e o trabalho

Por Bruna Miranda

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Piso salarial baixo, denúncias de trabalho escravo e o ápice com os escândalos da indústria confeccionista em Bangladesh – por que o ofício de costureira é tão desvalorizado?

Por mais que uma empresa de moda esteja relacionada com sua imagem através da publicidade aliada ao desejo do consumidor, o produto final é o que é efetivamente entregue. Por que, então, quem fabrica o produto – quem o costura – ainda é tão desvalorizado?

O ofício de costureira, no Brasil, está em processo de extinção. Ser costureira é tido como uma atividade tipicamente feminina, e, mais do que isso, quase uma espécie de tradição, passada de mãe para filha. Assim, há o pouco interesse dos jovens em aprender essa profissão, e as costureiras atuais ou vão se aposentando, ou não sabem trabalhar com novos maquinários e tecnologias. Muitas, na verdade, fogem da confecção – o piso da categoria é pouquíssimo atrativo. Muitas novas empresas ficam abaixo da capacidade de produção por falta de profissionais.

De outro lado, o país também enfrenta a onda de trabalho ilegal praticado por confecções – este é importado, em geral da Bolívia. Escândalos como os da Inditex e da GEP são apenas alguns que se revelam em meio a grandes centros produtores como os bairros de Bom Retiro e Brás, em São Paulo. Isso não está restrito ao Brasil. A Argentina acusou a mesma Inditex de manter como fornecedores oficinas clandestinas de trabalho escravo em Buenos Aires.

Em maio, a queda do edifício de uma confecção em Bangladesh, matando mais de mil pessoas, chamou a atenção para as más condições de trabalho no país e a exploração da mão de obra barata pelas grandes redes varejistas de moda. O portal PortugalTêxtil denunciou a relação donos de confecção de Bangladesh/compradores exigindo preços cada vez menores.

No país, que tem em 80% de suas exportações produtos de vestuário, muitos donos de confecções são políticos ou têm relações estreitas com a política. Ou seja, além da impunidade, não há pressões para se melhorar o salário e as condições de trabalho dos funcionários dessa indústria. As grandes marcas aproveitam a concorrência intensa entre os confeccionistas de Bangladesh, exigindo salários cada vez menores. Por outro lado, o salário mais alto é tido como um problema para a nação, já que a saída dos grandes compradores do país causaria saída de capital estrangeiro e níveis de desemprego alarmantes.

Base da marca de moda, responsáveis pela confecção do produto, a costureira ganha mal e não é valorizada. Foto: R7

Base da marca de moda, responsáveis pela confecção do produto, a costureira ganha mal e não é valorizada. Foto: R7

A marca é constituída dos valores imateriais da empresa que é, no final, o produto quem entrega. No mercado da moda, atualmente, há uma grande ênfase em construção de marca, e é vital alinhar produto e qualidade aos valores dessa marca. Afinal, é ele quem suporta esses valores. Para fazer isso, é necessário analisar se a empresa está de acordo com aquilo que quer mostrar como seus valores. O produto (seja ele máquina ou homem) deve ser mais valorizado no processo.

Treinar, atualizar, melhorar a remuneração, fazê-los participar do processo e compreender e vivenciar os valores da empresa são ações elementares – e investir em capital humano.

Foto do topo: Costureiras (1950), de Tarsila do Amaral. Foto: MAC Virtual
Por Vivian Berto – Tendere

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Sobre Bruna Miranda

Desde que meu armário coube na mala busco a leveza abundante dos essenciais, dos atemporais, da soma de resgates e inovações.

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