A história do eco fashion

Por Bruna Miranda

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Na Voguepedia, o termo Eco Fashion conta a história da união da moda com a sustentabilidade. Como começou, onde, por quem… Para conhecer a jornada da moda consciente, segue aqui nesse post, em português. Espero encontrar também tópicos que contem do movimento no Brasil!

Eco Fashion

Na manchete do New York Times em março leu-se: “O Movimento Verde no Mundo da Moda”, e, no mesmo mês, o primeiro artigo sobre a nova ‘tendência’ ambiental foi publicado na Vogue. Nos desfiles recentes de Norma Kamali, destaque para as modelos em camisetas com slogans como “Esquadrão da Chuva Ácida” e “Crianças da Terra”. No verão, a britânica e influente Katharine Hamnett estava debatendo contra os ‘eco-males’ da moda nas Nações Unidas.

O ano? 1990.

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Depois de pesquisar sobre o impacto social e ambiental do vestuário e da indústria têxtil, em 1989, que revelou uma situação insustentável, Katharine Hamnett tem concentrado seus esforços na sensibilização para estas questões, fazendo campanha sobre algodão orgânico – que é melhor para nós, para os agricultores e para o planeta – e melhores condições de trabalho para os milhões de trabalhadores de vestuário em todo o planeta. Aclamada “Rainha do Verde” pela British Vogue e premiada como “herói ética” N˚1 “pela revista New Consumer, Katharine Hamnett comprova que as visões éticas e políticas podem andar de mãos dadas com a moda de luxo.

Foi desse modo que, no início dos anos noventa, as sementes de moda sustentável foram plantadas e os conceitos de reciclagem e tecidos ecológicos começaram a crescer. Em Paris, o designer Lamine Kouyaté, do Mali (mais conhecido como Xuly-Bet, o nome de sua marca), estava entretido reaproveitando achados de mercados de pulgas, como mantas, vestidos de lycra, meias-calças antigas, em novas criações. A incrível Martin Margiela, da Antuérpia, estava em ascensão, furiosamente desconstruindo – e reconstruindo – suas próprias e habilidosas peças, e, em Milão, Giorgio Armani, o maestro do terno, iria começar a experimentar com o cânhamo.

Mas a mudança ambiental real e duradoura criaria raízes lentamente. Em primeiro lugar, os designers enfrentaram a formidável tarefa de educar os clientes céticos. Os desafios comerciais de “esverdear” o mercado também eram enormes, e a demanda do público, apesar de toda a agitação, era fraca. Outra questão importante foi o fator estilo. Embora muito longe de suas origens “hippies bolsas de cânhamo”, as roupas vendidas sob os slogans eco fashion e moda verde ainda tinham que ser equiparadas com o chic.

Foi mais ou menos assim até a primavera de 2002, quando os clientes conferiram pela primeira vez a nova e muito alardeada marca Stella McCartney, que a eco moda começou a ser olhada menos como um chamariz e mais como uma proposta séria de negócio. Seus designs elegantes e animal friendly (sem o uso de couro ou pele), com a proposta de uma vida saudável, atraiu celebridades amigas e aliviou a imagem “granola” de palavras como vegan e orgânico. Em março de 2005, a Vogue destacou a Edun, marca social e ambientalmente consciente de Bono, vocalista do U2, e sua esposa, Ali Hewson. “Nós temos essa idéia de que vamos fazer as pessoas conscientes das etiquetas. Onde foi feito, quem o fez, como é feito”, disse Bono à revista.

A mudança profunda no mercado finalmente chegou, por volta de 2007, quando uma lista A de celebridades, incluindo Naomi Watts e Kate Bosworth, começou a ser vista regularmente em peças de tencel (fibras de celulose feitas a partir da polpa da madeira, um recurso natural e renovável que é retirado de florestas gerenciadas e auto-sustentáveis), da Organic by John Patrick, e ainda o “jeans verde” da FIN. A modelo Shalom Harlow apareceu em campanhas da Noir, marca eco-ética pioneira de Copenhagen. A Barneys New York lançou seu tapete verde, destacando a moda sustentável, incluindo uma nova linha Green e temas de reciclagem em suas famosas vitrines. “Não é uma tendência”, Julie Gilhart, diretora de moda da Barneys, disse ao Women’s Wear Daily. “A tendência é algo que morre. Isso é um movimento”.

Naquela primavera, a designer Anya Hindmarch tornou-se uma notável disseminadora do “eco-cool” quando a atriz Keira Knightley foi vista carregando uma sacola de sua marca, Hindmarch, bege e marrom, estampada com o slogan “Eu Não Sou Um Saco Plástico”. Com sua aparência retrô, se esgotaram em poucas horas em Londres e Nova York. A proposta de sacolas reutilizáveis foi, então, lançada. No outono, a sacola FEED, da modelo Lauren Bush, tornou-se o mais recente símbolo ético-verde.

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Eu não sou um saco plástico

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Feed

Enfim, o que muitos temiam que seria apenas mais uma tendência passageira floresceu em uma mudança de lifestyle de toda uma cultura (ou, pelo menos, um desejo de mudança). “O verde é o novo preto” tornou-se o lema do momento. Com o endosso de celebridades ligadas ao estilo de vida eco, incluindo Cameron Diaz e Gisele Bündchen, ir de encontro à proposta verde tornou-se uma escolha atraente, o que fez com que muitos tentassem capitalizar em cima. Além de todo o jargão eco (certificado orgânico, comércio justo, baixo impacto, sustentável, local, ético, artesanal, reaproveitamento) os consumidores tornaram-se, infelizmente, cientes de um outro termo: o greenwashing.

História

1988
A primeira coleção Martin Margiela, da Antuérpia, para a primavera de 1989, apresenta um avental de couro, de açougueiro, reaproveitado em um vestido de festa. Ele irá em breve tornar-se conhecido como o líder do movimento desconstrucionista, e pelo uso de materiais reciclados em suas coleções.

1989
Franco Moschino envia modelos para a passarela com camisetas pedindo que os consumidores “parem de usar nossos oceanos como um W.C.”.

1990
Março: Em “Seleção Natural”, Vogue destaca a nova tendência ambiental na moda. Modelos de Norma Kamali usam camisetas com slogans como “Acid Rain Squad” e “Earth Children”. New York celebra o vigésimo aniversário do Dia da Terra com eventos eco-temáticos em toda a cidade.
Junho: Os membros do Grupo de Moda, incluindo a designer Katharine Hamnett, falam com as Nações Unidas sobre os impactos ambientais da indústria.

1993
Os designs feitos com reaproveitamento de Xuly-Bet ganham destaque em Paris, Nova York e Milão.

1995
Giorgio Armani começa a usar o cânhamo em sua coleção Emporio Armani.

2000
Tara Subkoff e Mateus Damhave trazem de volta o chic para a Semana de Moda de Nova York, com uma linha retrabalhada de peças que sobraram em brechós.

2001
Fevereiro: Natalie Chanin lança o Projeto Alabama, empregando redes de costureiros em Florença, Alabama, sua cidade natal. A coleção, com 200 camisetas costuradas à mão, emociona na Semana de Moda de Nova York.
Outubro: Ex-estilista da Chloé, Stella McCartney lança sua própria linha, que passa a ser conhecida por suas políticas animal friendly (sem o uso de couro ou peles).

2004
Rogan Gregory e Scott Hahn lançam a Loomstate, primeira linha de jeans orgânico. O primeiro Ethical Fashion Show – uma vitrine do desenvolvimento sustentável e design artesanal, é realizada em Paris.

2005
Fevereiro: A ONG ambiental Earth Pledge realiza seu primeiro desfile de moda ecofriendly. Bono, do U2, e sua esposa, Ali Hewson, colaboram com Rogan Gregory na Edun, uma marca ambientalmente e socialmente consciente.
Outubro: “Tecidos éticos ganhando popularidade”, relata o WWD.
Novembro: O Projeto Alabama e linha de tricô eco-minded Lutz & Patmos são nomeadas finalistas no CFDA/Vogue Fashion Fund.

2006
Janeiro: Documentário do ex-vice-presidente Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente”, estreia no Sundance Festival.
Abril: Na véspera do 35º aniversário do Dia da Terra, a jornalista Suzy Menkes escreve para o International Herald Tribune com o título “Ecofriendly: Por que o verde é o novo preto.”
Setembro: O Conselho Britânico de Moda lança o Estethica, uma vitrine da moda ética. A designer Katharine Hamnett lança uma linha de sportswear sustentável.

2007
Fevereiro: O WWD aponta os designers que não usam pele, incluindo Stella McCartney, Comme des Garçons e Calvin Klein. No desfile de outono da Edun, as atrizes Zooey Deschanel e Rain Phoenix cantam músicas sobre o aquecimento global e gasolina.
Abril: Todas as 20 mil ecobags da designer Anya Hindmarch, estampadas com o slogan “Eu Não Sou Um Saco Plástico,” são vendidas em uma hora, em Londres.
Maio: Na Vogue, Robert Sullivan explora o movimento consciente de roupas em “Terra para a Moda”, e Jane Herman relata sobre os desafios envolvidos em tornar a calça jeans “verde”. A Vanity Fair lança sua primeira edição verde.
Outubro: A Portland Fashion Week, em Oregon, apresenta a primeira semana de moda totalmente verde do mundo.
Novembro: O guru de moda sustentável Rogan Gregory leva o prêmio máximo no CFDA/Vogue Fashion Fund. A boutique Colette, de Paris, lança a promoção “O Verde está em alta” com camisetas orgânicas por Katharine Hamnett e L.E.N.Y, beneficiando o “Projeto do Clima”, de Al Gore.
Dezembro: As modelos Shalom Harlow e Elettra Wiedemann e os designers Diane von Furstenberg e John Patrick, da Organic, contribuem para o “FutureFashion White Papers”, um livro apoiado pelo CFDA com ensaios sobre a sustentabilidade na indústria da moda. A bolsa orgânica e de comércio justo FEED, da modelo Lauren Bush, é vendida para beneficiar o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas e se torna um novo ícone verde. William Norwich, da Vogue, explora a proposta consciente em “Esverdeando a Temporada”. Com o sucesso de sua iniciativa Green, a Barneys New York monta uma homenagem à reciclagem em suas vitrines.

2008
Janeiro: A organização sem fins lucrativos Earth Pledge e a Barneys New York se unem para o FutureFashion, um desfile de alta costura com propostas verdes, com nomes de peso como Versace, Calvin Klein e Yves Saint Laurent.
Julho: A Fundação de Moda Ecco Domani anuncia a criação do novo Prêmio de Design Sustentável.
Dezembro: “O verde é o novo luxo” é a máxima na Conferência anual de Moda de Nova York, relata o WWD.

2009
Março: A Vogue introduz o Estilo Ético, uma seção especial destacando o melhor do “sustentável chic”, editado pela diretora de moda Tonne Goodman. A eco-ativista de longa data e modelo Angela Lindvall inaugura uma lingerie de tencel, orgânica e certificada pela Oeko-Tex, e um terno de algodão japonês, os dois produzidos por John Patrick, da Organic, finalista do CFDA/Vogue Fashion Fund.
Junho: Verde é o tema para a Vogue deste mês.
Setembro: A princesa Charlotte Casiraghi co-funda o EVER Manifesto, uma revista online e impressa dedicada a abordar o movimento da sustentabilidade.

2010
Fevereiro: A New York Fashion Week torna-se verde com uma nova política de carbono neutro, que envolve a compra de créditos de carbono para compensar todas as emissões de CO2. Os tecidos sustentáveis são amplamente vistos, e fontes de água são instaladas em um esforço para banir garrafas de plástico.
Abril: A linha Agua Cota, de Christian Cota, beneficia a ‘eco-causa’ “Do Vinho para a Água”.
Maio: O Museu no F.I.T. apresenta a montagem “Eco-Fashion: Going Green”, uma exposição focada na relação da indústria com o meio ambiente.
Setembro: Primeiro desfile oficial de moda sustentável é encenado na Semana de Moda de Londres.
Novembro: A modelo Sasha Pivovarova brilha em “Naturally Refined”, um portfólio ecofashion. O CFDA e a Lexus anunciam os homenageados do novo prêmio Desafio Eco Fashion: Monique Péan, Costello Tagliapietra e Maria Cornejo.

2011
Março: A Vogue e a equipe da Christie se unem com o grupo de consciência para a moda sustentável “Runway to Green” para um desfile e um leilão ao vivo. Grandes marcas e organizações sem fins lucrativos se unem para formar a Sustainable Apparel Coalition.
Maio: A modelo “eco-ativa” e embaixadora do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas, Gisele Bündchen, é nomeada Cidadã Ambiental Global da Universidade de Harvard, em reconhecimento aos seus esforços eco. A embaixadora da Lancôme Elettra Wiedemann usa um vestido reciclado, feito por Prabal Gurung, no baile do Met.
Julho: A marca eticamente consciente Suno é nomeada finalista no CFDA/Vogue Fashion Fund.

Matéria exibida em maio de 2009 no Programa Cidades e Soluções do Canal Globo News, apresentado por André Trigueiro.

Um update do site FFW cita detalhes bem anteriores à abordagem proposta pela Vogue, em uma época com produção infinitamente menor. Os primeiros registros de reaproveitamento e ética na moda, que viriam a se tornar a moda sustentável como a conhecemos hoje.

Preocupação com moda sustentável já existia no século 18

A moda ecológica como a conhecemos hoje teve início nos loucos 60s e no movimento ambientalista dos hippies. Mas os primórdios da moda sustentável se deram no início do século 18, quando os vestidos de seda feitos à mão eram alterados para dar uma nova utilidade ao tecido. Uma exposição montada no FIT (Fashion Institute of Tecnology) em Nova York, em 2010, reuniu algumas das peças confeccionadas desta forma consciente ao longo dos séculos, que usam desde práticas de reaproveitamento de tecidos com tingimentos novos aos direitos dos trabalhadores e proteção dos animais.

Confira algumas das imagens abaixo:

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Da esquerda para a direita: vestido com brocado de seda de 1760 feito com tecidos de qualidade superior; vestido de 1840, feito com reaproveitamentos de seda do séc. 18; vestido de 1865 tingido para reaproveitamento de tecido ©Reprodução

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Da esquerda para a direita: vestido de rayon, primeira fibra de tecido feita pelo homem usada em roupas de preço baixo, e vestido de seda de Madeleine Vionnet, a primeira estilista a oferecer férias pagas e pausas para café aos seus trabalhadores; capa feita de celofane, material composto por madeira, algodão ou cânhamo, e vestido de festa masculino feito de sobras de tecido do séc. 19 ©Reprodução

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Vestido de seda de 1941 cuja etiqueta diz: “New York Creations”, confirmando a produção local, com respeito aos direitos dos trabalhadores. A partir de 1941, essa etiqueta começou a aparecer em várias roupas ©Reprodução

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Da esquerda para a direita: terno de nylon de 1959, feito com técnicas que amassavam menos o tecido, tornando menos frequente a necessidade de lavagem, e terno em algodão feito com a parte interna de um xale paisley do séc. 18; vestido Betsey Johnson de 1971 com a etiqueta “Woolmark”, prova de que foi feito usando lã virgem, e saia feita à mão por mulheres da cooperativa Apache ©Reprodução

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Blusa Martin Margiela, “o pai da reciclagem”, feita de lenços de seda e suéteres feitos de meias de lã ©Reprodução

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Da esquerda para a direita: vestido dos anos 70 feito com reaproveitamento de tecido de 1920 e vestido Halston feito de ultrasuede, um tecido versátil, duradouro e lavável na máquina (embora não seja biodegradável), desenvolvido pelo estilista em 1971 ©Reprodução

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Sobre Bruna Miranda

Bruna é empreendedora e jornalista, idealizadora da plataforma Review e da revista impressa Guia Slow Living, e está experimentando uma vida nômade pelo Brasil. É movida pelo que é atemporal ...

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